FRONTERA


Claudia Paixão Etchepare

Ah, fronteiras! Dizem que são linhas divisórias onde acaba o conhecido e o desconhecido se apresenta a ser desbravado. Ao cruzar a fronteira abrimos mão de nossa soberania e corremos risco de ter nossas crenças subvertidas e nossas verdades postas à prova.

Partimos eu, meu marido, minha filha e minha tia-anjo-mãe para la más hermana de todas las fronteras del mundo. Era um dia iluminado de outono. Três diferentes gerações, nascidas nas décadas de 20, 50 e 80, compartilhavam o espaço do carro e a promessa de bons momentos. Santana do Livramento, onde nasci e vivi até os meus seis anos de idade, era o nosso destino. A integrante nonagenária da troupe garantia o testemunho das histórias de quem viveu o dia a dia da terra. A totalidade de nossa rede social reduzia-se a três companheiros de viagem e a estrada, a única opção de caminho. Como canta o vocalista da banda Eagles, this could be heaven, this could be hell...

Na estrada, do lado direito, coxilhas suaves tingidas de diferentes matizes de verde e extensões de rara amplitude para os olhos citadinos. Vacas, mais vacas. Do lado esquerdo, a mesma coisa. Olha aquela vaca ali, parece ser prima daquela que vimos mais atrás - diz o meu espirituoso marido, e nos faz explodir em risada, tomados pelo relaxamento compulsório que a estrada impõe. O aroma adstringente das bergamotas que saboreávamos disfarçava o cheiro de zurrilho em certos trechos da estrada. Lá fora, cercas sobem e descem acompanhando obedientemente as linhas do relevo. Capões, feito tufos rebeldes, salpicam o campo enquanto retalhos simétricos de reflorestamento de acácias beiram a estrada. Silos metálicos cortam a mesmice bucólica do pampa, imponentes representantes da economia do estado.
Quando eu viajava com frequência à Punta del Este pintei muitas aquarelas, impactada pelas imagens ao longo da estrada. E lá estavam as minhas inspirações: as casinhas de joão-de-barro empoleiradas nos postes, os passarinhos pousados em linha nos fios da rede elétrica, o amarelo intenso das plantações.

Chegamos em Santana do Livramento exalando pampa pelos poros. Lembro das nossas aventuras em minha terra natal como flashes fotográficos que me visitam à revelia num bater de asas de borboletas em minhas entranhas.
Parrilla. Alfajores. Comfort food para alguém criado com hábitos fronteiriços. Nosso charmoso hotel boutique em Livramento, instalado em um prédio histórico restaurado. Acolheu originalmente uma prisão, explica a esclarecida dona enquanto nos recebe para um brinde de boas-vindas. Mais parrilla. Cerveza Norteña. Algumas comprinhas no free shop da Avenida Sarandi em Rivera. Dulce de leche. Milhojas fresquinhas na confitería.
Um encontro enriquecedor com uma mulher culta e bela, cuja avó era irmã da minha avó. Ela vive em uma casa suntuosa estilo neoclássico, alheia ao caos do comércio e da arquitetura desfigurada das ruas que sobem e descem o centro de Livramento. Conversa caudalosa e calorosa, regada a vinho local. Identificação mágica. Eskerrik asko, meu conterrâneo e basco-descendente, assim como eu, por este contato. Mais compras: vinho tannat para compor a adega de inverno e galletas. Fazer uma fesinha, tentar la suerte no cassino. Negro el ocho! No vá más! Minha filha estava com a mão encantada. Emoção. A casa onde nasci. Pelas mãos de Dona Luizinha, a parteira. Cinza chumbo, porta muito alta trabalhada com entalhes em madeira e um robusto trinco de bronze – arquitetura clássica da região.

Frações de memórias nas ruas da cidade ganham uma nova dimensão à luz de meu amadurecer. A “Praça dos Cachorros” continua imponente. O olhar do homem de sobrancelhas grossas e pele cor de oliva sentado no banco da praça lembra os ares do meu pai. Ao cruzar a avenida, a imagem da mulher de traços nobres e trajar elegante me enche de saudade da beleza de minha mãe. Um brinde para celebrar o sucesso de nossa excursão e incursão ao passado. Missão cumprida, com tudo que tínhamos direito. Matambre delicioso e incrivelmente macio. Chajá. Un té, por favor, para ajudar a digestão. Pena que não pudemos visitar o Clube.

Santana do Livramento tem uma fronteira sui generis no conceito moderno de comunidades colaborativas e interativas. É uma fronteira de mescla, de soma. Lá, o simples cruzar de uma avenida determina a mudança de nacionalidade da terra Brasil para a terra Uruguai. E nada muda. Tudo se funde. O português e o espanhol são intercambiados com naturalidade ou se mesclam. Os traços físicos, a maneira de se vestir, o hábito de tomar mate e o gosto pelo assado fundem-se no gaúcho fronteiriço ou gaucho. A integração entre os dois países incorpora grandezas que vão além da boa vizinhança.

Voltamos pela mesma estrada. Do lado esquerdo, ganado Angus, Hereford, Holandês, verde em profusão e em diferentes tons, e do lado direito... Bem, eu já contei. Só que, no percurso de volta, a imensidão da paisagem não mais se exibia distante, pelo lado de fora. Estava dentro de mim.
Ah, fronteiras!


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Claudia Paixão Etchepare

E-mail: claudia.paixao.etche@gmail.com

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