CHURRAS


Claudia Paixão Etchepare

Churras

Tudo começa com o convite:
— Aparece lá em casa no domingo. Vamos fazer um churras!

Vivi em vários países do mundo e o ritual - um tanto bárbaro - do churrasco nunca deixa de me surpreender. Me reporta um pouco àquela aldeia gaulesa com o Obelix comendo paletas de javali imensuráveis.
Como estrangeiro, vivendo em POA há quase 2 anos, fui convidado para muitos churrascos. Mas somente recentemente, no entanto, descobri que o churrasco não se trata de uma farra gastronômica pura e simples. Há muito mais envolvido.

O churrasco, na verdade, trata-se de uma competição (uma verdadeira olimpíada) com várias modalidades disputadas. Para começar, a escolha da carne é coisa pra macho. Mulher dar opinião, nem pensar. Bem capaz! (When hell freezes over!) - expressão dita com uma ênfase toda especial pelos gaúchos.

Tudo envolto em segredos: a carne se compra no dia do churrasco, cada um tem sua Casa de Carnes favorita (e alguns não revelam) e cada corte de carne abre a porta para um diferente reino dos céus, dependendo do paladar do indivíduo. Há truques diversos para a carne ficar suculenta, vermelhinha por dentro, mais macia, a gordura pra cima - ou pra baixo? Isso é coisa de paulista! - dizem os mais bairristas. A competição entre puristas e inovadores pode trazer infindáveis discussões técnicas, científicas ou até mesmo crendices. Conversas levadas muito a sério. Não compacta muito o carvão! O oxigênio precisa circular para manter a brasa acesa. Mas há um denominador comum: tudo regado a ceva beeeem gelada. Ah, e o sal grosso, muito sal grosso.

Alguns vestem a camiseta do seu time, o Grêmio ou o Internacional, o que rende uma série de trocas de impropérios. Custei a entender que é tudo brincadeira. Cada um tem a sua faca e cada faca tem a sua história. São usadas para cortar lascas das peças enormes de carne em espetos. São levadas diretamente à boca e, invariavelmente, são seguidas de uma interjeição de prazer (quase de cunho sexual).

As mulheres ficam responsáveis pelos complementos. Elas providenciam salada de batata, salada de folhas verdes, tomate e cebola, palmito. E a farofa. (Weird). Por sua vez, as mulheres competem nos quesitos estética e modelitos. Esta competição é ferrenha. Este modelito comprei em Nova Iorque, ah não, acho que foi naquele super shopping perto de Miami. O cabelo? Cortei no Rio, com o Marquinho. A bolsa comprei nas Galerias Lafayette, mas estava em liquidação. A reclamação a carne tá muito malpassada, tá escorrendo sangue é recorrente entre as mulheres em, praticamente, todos os churrascos.

Quando sobe o teor etílico, os homens começam a trovar. Trovar, para o gaúcho, quer dizer contar histórias, verdadeiras ou não. Todas vêm com selo de verdadeiras, mas sabe-se, e a regra prevê, que se pode exagerar um pouco. Os assuntos permeiam o universo do futebol, mulher, mulher e futebol. A certa altura as histórias ficam muito cabeludas, quase do tipo Believe it or not. Eles se abraçam, se xingam, se congratulam, dão risadas ensurdecedoras, se enticam. As mulheres ficam unidas no seu canto, fingindo que desaprovam as maneiras brutas de seus homens. Mas também descobri: elas gostam.

Quando chega a hora de contar piadas a coisa já está completamente fora de controle. Na verdade, tudo pode acontecer.
O resultado da competição é sempre um empate e no final os homens se abraçam dando tapas fortes nas costas suadas e marcam o próximo churrasco!

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Claudia Paixão Etchepare

E-mail: claudia.paixao.etche@gmail.com

WhatsApp: 99 66 12 858

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