O MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA


Claudia Paixão Etchepare

Li recentemente a informação sobre a reconstrução do Museu da Língua Portuguesa. Diz a notícia que ele reabrirá em poucos meses, após ter sido destruído por um incêndio, há 5 anos.

Sempre me causou estranheza falar em aprisionar uma língua em um museu. Coisas vivas, como uma língua, não podem ser trancafiadas em um museu, ora bolas! A língua portuguesa é uma dama caprichosa originária do latim vulgar, tem personalidade, tem vontade própria. Sua sina é evoluir, sempre. São séculos de histórias de domínio, submissão e colonização, com acréscimos de novas palavras ao seu vocabulário. No caminho, incorporou extravagâncias e facetas áridas. É vaidosa e intempestiva.

Como escritora, mantenho um relacionamento de parcimônia com seus melindres. Como em uma trama de tricot tecida, obrigatoriamente a duas mãos, consigo subjugá-la parcialmente para que satisfaça as minhas demandas e arroubos criativos. Mas sua parte indomável resiste.

Como poderia um museu capturar as nuances dos caprichos desta língua? Um museu que enclausura objetos em expositores de vidro e expõe registros destituídos de movimento em paredes?

Inflamada pela bisbilhotice inata do ser humano, na primavera de 2013, fui visitar o Museu da Língua Portuguesa, pronta para desacreditar e desconjurar qualquer tentativa rasa de homenagem à nossa língua. Meus passos titubeantes iniciais não tardaram a se transformar em um sapateado ao melhor estilo Gene Kelly. Ao ambular pelos dois andares da exposição, encontrei um acervo digital impecável celebrando a língua portuguesa e encantando os visitantes. A literatura brasileira era a menina dos olhos. E mais, palavras dançavam projetadas nas paredes e no teto. Respondiam ao comando de cliques. Palavras vivas, muito vivas interagiram comigo. Tudo, absolutamente tudo que precisamos saber sobre a língua portuguesa, estava ali mostrado em peripécias tecnológicas, nos convidando a entrar e desfrutar de sua história.

Hoje, em 2020, tive uma interessante revelação, no rastro desta visita. Ao ler detalhes sobre a reabertura do museu, cujas atrações usarão tecnologias de última geração, tive uma epifania. Entendi que estou testemunhando um salto semântico na língua portuguesa, quando uma palavra adquire um novo status. O conceito da palavra museu, há muito tempo estabelecido - e que eu vinculava com mausoléu, mudou. A nova acepção da palavra transformou museu em casa de espetáculos interativos - com direito a efeitos especiais e tudo mais.

E, assim, a língua portuguesa cumpre a sua sina, bem diante dos meus olhos. E é neste ponto que tive a epifania maior. Recorro ao recurso de parodiar o poeta Mario Quintana, para melhor expressar minha constatação:
Nós passaremos, e ela, a dama caprichosa, passarinho. Sempre voando mais e mais alto.

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Claudia Paixão Etchepare

E-mail: claudia.paixao.etche@gmail.com

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