PAIXÃO DE VERÃO


Claudia Paixão Etchepare

Apaixono-me todo início de verão. E me desapaixono ao término do carnaval.

Não, não estou falando de folias carnavalescas. Estou falando de baixa densidade demográfica da cidade, quando uma fatia gorda da população vai em busca de areias finas e escaldantes ou aventura-se por terras mais distantes.
Estou falando de rodar por avenidas desimpedidas com o reflexo dos prédios deslizando suavemente pelo vidro do carro. De ouvir o tamborilar faceiro do paralelepípedo nos pneus do carro ao desbravar as partes íntimas da cidade, sem pressa nem pressão. Por fora, o calor dourado e por dentro, o conforto do ar condicionado. Personagens ilustres como Borges de Medeiros e Fernando Machado nos cumprimentam amigavelmente na sua esquina. Onde se escondem durante o ano? Estou falando de espaços ampliados com novos ângulos de percepção. Neste hiato de tempo, a vida migra para as ruas e se dilui em seu mais vaporoso estado. Ecléticos tipos engrossam a heroica resistência dos que ficam. Cumprimentamo-nos com um quase inclinar da cabeça e um sorriso no canto da boca que se ergue em vírgula. Uma cumplicidade tácita nos une.

Nesta época do ano, meu pulso desacelera e o meu modo câmera lenta se instala. Tenho vontade flanar, flertar, comer bomba de chocolate, depurar os olhos em longa mirada sobre as vitrines. Cruzo com conhecidos e me engajo em dilatada conversa. Faço uma lista de restaurantes, só aqueles de raros sabores e vultosos valores, e degusto suas iguarias sentada às suas melhores mesas – a preço de ocasião. E tem os vizinhos. Converso com eles, também.

Meu caso com Porto Alegre no verão é sério.

Depois do carnaval não detesto minha cidade. Somente a excomungo - não raras vezes - e a traio frequentemente. Não a traio com uma Paris ou Nova Iorque. São triviais escapadas a cidades serranas ou costeiras com as quais desenvolvi uma certa intimidade. As traições internacionais são mais espaçadas, mas confesso: são dias e noites entregues à dolce luxúria. Sempre no contrafluxo dos feriados e na baixa estação.

E assim, cidades conquistam meu coração em uma eterna busca de baixa densidade e máximo prazer, como a minha amada Porto Alegre. No verão.

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Claudia Paixão Etchepare

E-mail: claudia.paixao.etche@gmail.com

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