Os sexos e a língua


Claudia Paixão Etchepare

Abrir travessões, preencher as reticências e colocar pontos de exclamações em uma história que já se encerrara com um ponto final? Meu amigo entra em pânico quando a D.R. ( sigla usada popularmente para ‘ Discussão da Relação’) é proposta. É homem de frases curtas, verbos de ação, ora bolas. Sabe que não conseguiria lidar com adjetivos e - imagina! - substantivos abstratos.

Assim é o sentimento dos homens. Resolvem a vida com poucas palavras. Só os advogados têm um acervo mais amplo de palavras, mas o usam somente como ferramenta de trabalho. As mulheres já são afeitas a entrelinhas, crases e adoram abrir parênteses. E - horror dos horrores - adoram corrigir os maridos nos seus erros de português. Você quis dizer: Eu trouxe o cartão de crédito, não é, Frederico? Há algumas que expelem palavras compulsivamente e pouco se extrai de produtivo ao final de suas falas. Elas usam as palavras como armas de convencimento, de chantagem, de sedução, de crítica. Geralmente fazem um uso de um tom agudo, mas há as que falam por entre dentes e voz baixa. Essas são perigosas. Figuras de linguagem, fala indireta e voz passiva são usadas quando o assunto é convencer, digamos, o marido a pagar uma viagem a NY com as amigas (ao invés de passar as férias no apartamento da sogra no litoral). Pontos finais geralmente marcam o término de uma ordem e quando uma risada farta segue a exclamação, pode apostar que esta mulher está intimidada nesta hora. Alguma coisa a perturbou.

Enfim, mulheres são seres complexos que usam indiscriminadamente todo o potencial que a língua portuguesa disponibiliza.

O fato é que, do alto de sua soberba e alheia aos estilos ou gênero de quem a utiliza, a língua portuguesa disseminou seus encantos por distintos continentes. Neles, lavra leis, expressa ideias, traduz sentimentos e perpetua a cultura das almas de dez diferentes nações. Em todas sofre transgressões e verdadeiros atentados, mas continua impávida, agregando neologismos, anglicismos, galicismos e outros estrangeirismos que, na minha opinião, só acentuam sua beleza. Os puristas que me perdoem.

Eu gosto de tratá-la no gênero feminino, a língua portuguesa, mas tem quem prefira tratá-la no masculino, o português.

Independentemente da escolha feita, o Dicionário da Língua Portuguesa deveria trazer uma advertência: Frágil. Manuseie com cuidado. E, por uma questão de saúde pública, locais com alta concentração de mulheres deveriam ter o seguinte aviso afixado: Várias mulheres falando no mesmo recinto pode ser nocivo à saúde.

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Claudia Paixão Etchepare

E-mail: claudia.paixao.etche@gmail.com

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